O que é consciência? Uma jornada do universo ao mistério de existir

Você já parou para pensar que a história de tudo o que você é começou muito antes do seu nascimento?

Antes do seu nome, da sua família e de qualquer lembrança que possua, o universo já atravessava uma jornada extraordinária. Estrelas nasciam e morriam. Galáxias se formavam. Elementos químicos eram produzidos no interior de astros antigos.

Bilhões de anos depois, parte dessa matéria passou a integrar um ser capaz de olhar para o céu, refletir sobre a própria existência e perguntar:

Quem sou eu?

Essa pergunta nos conduz a outra, ainda mais desafiadora:

O que é consciência?

Podemos estudar o cérebro, observar comportamentos e identificar atividades neurais relacionadas às nossas experiências. Ainda assim, a sensação íntima de estar vivo — perceber um pensamento, sentir uma emoção ou reconhecer a própria existência — continua cercada por perguntas.

A consciência parece ser, ao mesmo tempo, a coisa mais próxima de nós e uma das mais difíceis de explicar.

Este artigo nasceu do primeiro episódio do canal Consciência: A Grande Jornada. Para acompanhar essa reflexão também em vídeo, assista a:

Consciência: A Grande Jornada — o início de uma investigação sobre quem somos

Uma história que começou antes de você

As estimativas científicas atuais indicam que o universo possui aproximadamente 13,8 bilhões de anos.

O Big Bang costuma ser popularmente imaginado como uma explosão ocorrida em algum lugar vazio. Entretanto, a descrição científica é mais complexa: trata-se da expansão do próprio universo a partir de um estado extremamente quente e denso. Espaço, matéria e energia passaram por transformações que, ao longo de bilhões de anos, permitiram o surgimento das estruturas cósmicas que hoje observamos.

Com o passar do tempo, surgiram as primeiras estrelas.

Dentro delas, pressões e temperaturas extremas possibilitaram processos de fusão nuclear. Estrelas produziram elementos que, depois de serem lançados no espaço durante diferentes etapas de sua evolução e morte, participaram da formação de novas estrelas, planetas e sistemas solares.

Isso significa que muitos dos elementos presentes na Terra e em nosso corpo possuem uma história cósmica.

O carbono que compõe os organismos vivos, o oxigênio que respiramos, o cálcio de nossos ossos e o ferro presente no sangue estão relacionados a processos ocorridos no interior de estrelas antigas ou durante eventos associados à morte delas.

Não somos apenas observadores distantes do universo.

Somos constituídos por elementos que fazem parte de sua própria história.

Vovô Edi em dúvida durante uma reflexão sobre a origem da vida e da consciência.

Como a matéria deu origem à vida e à consciência?

A formação dos elementos ajuda a explicar de onde vieram os componentes materiais necessários para a existência da vida.

Mas ela não responde a todas as perguntas.

Como a matéria se organizou até produzir organismos vivos?

Como alguns desses organismos desenvolveram sistemas nervosos complexos?

E como a atividade de um cérebro passou a ser acompanhada pela experiência subjetiva de perceber, sentir e existir?

A ciência conseguiu avançar muito na investigação das relações entre cérebro, percepção, memória, atenção, vigília e comportamento. Pesquisadores também estudam os chamados correlatos neurais da consciência: padrões de atividade cerebral associados à presença de determinadas experiências conscientes.

No entanto, identificar essas relações ainda não explica completamente por que a atividade cerebral é acompanhada por uma experiência interior.

Como impulsos elétricos, reações químicas e redes de neurônios produzem a sensação de enxergar uma cor, sentir saudade, experimentar dor ou perceber a própria existência?

A relação entre os processos cerebrais e a experiência subjetiva permanece entre os problemas mais profundos e ainda não resolvidos pela ciência da consciência. Existem teorias e avanços importantes, mas não há uma explicação final aceita por todos os pesquisadores.

Reconhecer esse limite não diminui o valor da ciência.

Pelo contrário.

A ciência avança justamente quando distingue aquilo que já pode ser sustentado por evidências daquilo que ainda permanece como hipótese, interpretação ou pergunta aberta.

O que significa estar consciente?

Em termos simples, estar consciente é possuir algum tipo de experiência.

Neste momento, você pode perceber as palavras que está lendo. Talvez também esteja ouvindo sons ao seu redor, sentindo a temperatura do ambiente ou acompanhando pensamentos que surgem durante a leitura.

Esses elementos estão presentes para você.

Mas existe uma diferença entre receber informações e ter a experiência subjetiva delas.

Uma câmera pode registrar uma paisagem. Um computador pode identificar objetos em uma imagem. Sensores podem reagir à luz, ao calor e ao movimento.

Isso não demonstra, por si só, que esses sistemas experimentem aquilo que registram.

É nesse ponto que a consciência se torna tão intrigante: não estamos falando apenas de processar informações, mas da existência de um ponto de vista subjetivo.

Existe algo que é ser você neste momento.

Você não apenas reage ao mundo. Você possui uma experiência do mundo — e também uma experiência de si mesmo.

Quem é o observador dos seus pensamentos?

Feche os olhos por alguns segundos e observe o que acontece em sua mente.

Um pensamento pode surgir sem ser convidado.

Depois, outro aparece.

Talvez venha uma lembrança, uma preocupação, uma imagem ou uma frase incompleta.

Mas quem percebe esses pensamentos?

Somos os próprios pensamentos ou somos também aquilo que consegue observá-los?

Essa pergunta atravessa a filosofia, a psicologia, a neurociência e diferentes tradições contemplativas. Cada área a investiga a partir de métodos e pressupostos próprios.

A ciência procura compreender os mecanismos cerebrais relacionados à percepção e à autoconsciência.

A filosofia analisa conceitos como mente, identidade, subjetividade e existência.

As tradições espirituais e contemplativas oferecem interpretações sobre a natureza do eu, da consciência e da realidade.

Esses caminhos podem dialogar, mas não devem ser confundidos.

Uma crença espiritual não se transforma automaticamente em evidência científica. Da mesma maneira, aquilo que a ciência ainda não consegue explicar não comprova, por si só, uma conclusão espiritual.

O caminho mais responsável é investigar com abertura, mas também com discernimento.

Por que vivemos tantas vezes no piloto automático?

Mesmo sendo conscientes, não percebemos tudo o que acontece dentro de nós.

Tomamos decisões, criamos hábitos, sentimos emoções e reagimos às situações sem compreender completamente todos os processos envolvidos.

Pesquisas sobre comportamento indicam que nossas ações podem resultar de combinações entre processos conscientes e não conscientes. Isso ajuda a entender por que ter consciência racional de que um comportamento nos prejudica nem sempre é suficiente para mudá-lo.

É possível saber que uma tarefa precisa ser realizada e ainda assim procrastinar.

Podemos desejar tranquilidade e reagir impulsivamente.

Podemos decidir abandonar um hábito e repeti-lo poucos dias depois.

Também podemos buscar constantemente a aprovação de outras pessoas sem perceber de onde essa necessidade surgiu.

Isso não significa que somos incapazes de mudar.

Significa que a mudança exige mais do que uma decisão momentânea.

Ela começa quando aprendemos a observar os padrões que antes atuavam sem serem reconhecidos.

Vovô Edi em um momento sereno de reflexão sobre consciência e autoconhecimento.

Consciência e autoconhecimento são a mesma coisa?

Os dois conceitos estão relacionados, mas não são idênticos.

A consciência permite que tenhamos experiências, percepções, sentimentos e pensamentos.

O autoconhecimento surge quando direcionamos parte dessa capacidade para observar quem somos, como reagimos e quais padrões influenciam nossas escolhas.

Desenvolver autoconhecimento significa começar a perceber:

  • quais situações despertam determinadas emoções;
  • quais comportamentos se repetem;
  • quais medos limitam nossas decisões;
  • quais valores realmente orientam nossas escolhas;
  • quanto de nossa identidade foi construído para atender às expectativas alheias;
  • quais partes de nós evitamos observar.

O objetivo não é controlar cada pensamento ou eliminar todas as emoções desconfortáveis.

Também não é encontrar uma versão perfeita e definitiva de nós mesmos.

Autoconhecimento é aprender a reconhecer o que acontece dentro de nós antes de agir automaticamente.

Aquilo que não observamos pode continuar influenciando nossas escolhas.

Aquilo que começamos a compreender deixa de atuar completamente escondido.

Existe diferença entre viver e estar verdadeiramente vivo?

Do ponto de vista biológico, estar vivo envolve processos que caracterizam os organismos vivos.

Mas a pergunta “o que significa estar vivo?” também possui uma dimensão existencial.

Uma pessoa pode cumprir compromissos, repetir rotinas e atravessar os dias sem refletir sobre o modo como está vivendo.

Pode trabalhar, consumir, resolver problemas e alcançar objetivos sem sentir que existe uma direção verdadeira em sua vida.

Isso nos leva a perguntas inevitáveis:

  • O que realmente importa?
  • O que faz uma vida valer a pena?
  • Existe um propósito universal?
  • Cada pessoa precisa construir o próprio significado?
  • Estamos vivendo de acordo com nossos valores ou apenas respondendo às circunstâncias?

A filosofia não oferece uma única resposta aceita por todos. Existem perspectivas que relacionam o sentido da vida à realização de propósitos, à construção de uma trajetória coerente, aos vínculos humanos, à contribuição para algo maior ou ao desenvolvimento de determinadas virtudes.

Talvez não exista uma resposta simples capaz de encerrar a questão.

Mas isso não torna a pergunta inútil.

Algumas perguntas são importantes não porque produzem uma conclusão definitiva, mas porque mudam a maneira como vivemos enquanto procuramos respondê-las.

A espiritualidade pode ser uma investigação?

Para algumas pessoas, espiritualidade significa seguir uma religião.

Para outras, está relacionada à meditação, à contemplação, à conexão com a natureza ou à busca por um significado que ultrapasse os interesses imediatos do cotidiano.

Neste projeto, a espiritualidade não precisa ser apresentada como um conjunto de respostas prontas.

Ela pode ser tratada como um campo de investigação.

Podemos perguntar:

A consciência pode passar por estados diferentes daqueles vividos normalmente?

A meditação transforma nossa forma de perceber pensamentos e emoções?

A sensação de conexão entre todas as coisas é apenas um estado psicológico?

Existe algo na realidade que ainda não compreendemos?

A pesquisa científica estuda práticas contemplativas e diferentes estados de consciência, mas os resultados precisam ser interpretados dentro dos limites de cada estudo. Experiências subjetivas podem ser profundamente significativas para quem as vive sem, por isso, demonstrarem automaticamente uma realidade sobrenatural.

Podemos manter a mente aberta sem abandonar o senso crítico.

Essas duas atitudes não são inimigas.

O que acontece com a consciência quando morremos?

Poucas perguntas provocam tanto medo, curiosidade e reflexão.

Quando o organismo morre, a consciência desaparece?

Ela poderia continuar existindo de alguma forma?

O que significam os relatos de experiências de quase morte?

Existem tradições religiosas e espirituais que defendem a continuidade da consciência. Também existem interpretações materialistas segundo as quais a experiência consciente depende integralmente do funcionamento cerebral.

Entre essas posições, pesquisadores investigam relatos, condições neurológicas, experiências subjetivas e os estados vividos por pessoas submetidas a situações extremas.

As experiências de quase morte constituem um campo real de pesquisa. Entretanto, ainda não existe consenso científico sobre sua origem ou natureza, e esses relatos não podem ser apresentados como prova definitiva de que a consciência continua existindo depois da morte.

Há evidências de que pessoas relatam essas experiências.

Há hipóteses que procuram explicá-las.

E há interpretações filosóficas e espirituais sobre o que elas poderiam significar.

Essas três coisas não são equivalentes.

Distingui-las permite investigar o tema com respeito tanto pela experiência humana quanto pelos limites do conhecimento disponível.

Pensar sobre a morte pode mudar nossa maneira de viver

Refletir sobre a morte não precisa significar viver dominado pelo medo.

A consciência de que o tempo é limitado pode nos ajudar a reconhecer aquilo que estamos adiando.

Conversas que nunca tivemos.

Afetos que deixamos de demonstrar.

Sonhos abandonados por medo.

Momentos simples que não percebemos porque nossa atenção estava sempre no próximo compromisso.

A morte não é apenas uma pergunta sobre o que pode existir depois da vida.

Também é um espelho que nos obriga a perguntar como estamos vivendo agora.

Talvez o valor dessa reflexão não esteja em encontrar certeza sobre o que acontece depois, mas em adquirir clareza sobre o que importa antes.

Vovô Edi agradecido ao concluir uma reflexão sobre o sentido da vida.

Dois universos e uma mesma jornada

Durante séculos, olhamos para fora.

Construímos telescópios, observamos estrelas, estudamos galáxias e tentamos compreender as leis que organizam o cosmos.

Mas também existe um universo que cada pessoa carrega dentro de si.

Pensamentos.

Memórias.

Emoções.

Desejos.

Medos.

A sensação inexplicável de estar presente e existir.

A investigação do universo exterior nos ajuda a compreender de onde vieram os elementos que nos constituem.

A investigação do universo interior nos ajuda a compreender como estamos utilizando o breve período em que esses elementos formam aquilo que chamamos de “eu”.

Talvez essas duas jornadas não estejam separadas.

Ao estudar o universo, uma parte dele tenta compreender a própria origem.

Ao desenvolver autoconhecimento, essa mesma parte procura entender o que significa estar viva.

A jornada está apenas começando

Ainda não sabemos explicar completamente o que é consciência.

Não sabemos se existe um propósito universal para a vida.

Também não possuímos uma resposta científica definitiva sobre a possibilidade de a consciência continuar depois da morte.

O que temos são conhecimentos, evidências, hipóteses, experiências e interpretações.

Temos também a capacidade de perguntar.

Essa capacidade pode não oferecer respostas imediatas, mas pode transformar nossa maneira de enxergar a existência.

O propósito do Consciência: A Grande Jornada é explorar essas grandes perguntas com curiosidade, respeito e responsabilidade.

Do nascimento do universo ao surgimento da vida.

Da mente humana ao autoconhecimento.

Do propósito à espiritualidade.

Da experiência de viver aos mistérios que talvez existam além dela.

Porque compreender o universo e compreender a nós mesmos podem ser partes de uma única aventura.

E essa aventura está apenas começando.

Assista ao vídeo que deu origem a esta reflexão:

Consciência: A Grande Jornada — primeiro episódio no YouTube